A coisa Drag
2024
Centro Cultural UFMG / Belo Horizonte, MG – Brasil
A curiosa personagem, ponto a ponto, descrita por Guacira Lopes Louro em seu fabuloso texto Viajantes pós-modernos (2013), é uma drag queen. Figura essa, bagunceira e problematizadora, capaz de pôr em xeque toda e qualquer estabilidade, inclusive de si mesma. Cheia de ambiguidades, processada e reprocessada pelo mundo contemporâneo, ela liquidifica verdades. Como automentira ou pura invenção, a drag tensiona tudo. E essa, talvez, seja sua maior qualidade.
O encontro com essa passagem de texto foi o desencadeador de uma série de reflexões que parecem tardar a cessar. Ele acentuou algumas questões que vinham se enunciando em investigações anteriores, em que estava interessado em refletir sobre a noite e seu papel na construção das sociabilidades e imaginários LGBTQIA+. Todavia, para além de questionamentos sobre a arte drag, essas inquietações levariam a uma relação gritante, porém, até então, pouco clara: afinal, o que seria uma drag, em seu devir, senão uma metáfora da arte contemporânea? Pois, não são poucas as aderências ao transviado momento da arte em que vivemos. A produção artística do nosso tempo é marcada pela transformação, pela efemeridade e pela polissemia de materialidades, discursos e sentidos possíveis à criação artística. A arte contemporânea é uma voraz produtora de perguntas, embora não muito interessada nas respostas; questiona lugares e tensiona fronteiras. A partir dessas constatações, fundou-se uma segunda pergunta: o que seria a arte contemporânea, senão uma forma drag de existir?
Comumente associada à Cultura LGBTQIA+, a arte drag é uma modalidade artística produzida por drags queens, artistas transformistas e performers. Caracteriza-se centralmente na linguagem cênica, a partir da apropriação, da mistura e do reprocessamento de referenciais da cultura de massa e da indústria cultural. Em sua visualidade e conceito, o fazer drag elabora-se a partir da mixagem de elementos dos mais variados contextos e significados, articulados na performance e no corpo de seus/suas artistas, independentemente de seu gênero ou sexualidade, podendo manifestar-se num espectro estético tão amplo quanto desejarem. Entretanto, surgida nas artes da cena e modelada nos circuitos undergrounds, a arte drag como conhecemos hoje não tem limites: é um fenômeno que atravessa toda a cultura contemporânea, transbordando para outras mídias e linguagens, como a televisão, o cinema, a música e as artes visuais.
Para além do fenômeno artístico, na arte drag operam-se modos de existência em que as/os artistas, como personas, assumem outros corpos, outras formas e outras vidas, evidenciando trânsitos e fronteiras: operações formais e conceituais que colocam em xeque marcadores éticos, sociais e culturais pré-estabelecidos, normativos, limitados e limitantes. Sua potencialidade se manifesta em elementos como o exagero, a gambiarra, a não dicotomia, a ironia, a ambiguidade e a contradição. A drag reside na transformação, na expectativa e na surpresa de tudo aquilo que pode vir a ser, tal qual a produção contemporânea nas Artes Visuais.
A arte contemporânea deflagrou o uso de todas as coisas do mundo como elementos disponíveis à criação artística. Definiu como sua marca a pluralidade de práticas, materialidades e discursos que extravasam linguagens e lugares, até então, convencionais à arte. Ou seja, em termos plásticos, tudo o que existe é possível material artístico. Não há mais limites, nem fronteiras. O artista lança mão tanto da tinta a óleo quanto de maquiagens baratas como meios de criação. A obra pode estabelecer-se tanto no museu quanto no meio da rua, no corpo do outro ou corpo do/a próprio/a artista. Seu veículo não é mais só o visível, pode ser também o invisível; é de ordem material e imaterial. A forma também não é mais definida pela materialidade, podendo a obra existir nas relações. O pós-60 ampliou, também, os discursos da arte que, por sua vez, desenvolveram-se em novas formas artísticas. Sujeitos artistas antes silenciados, como mulheres, LGBTQIA+, pretos, pretas, indígenas e latino-americanos foram conquistando voz, criando base para estabelecer outras visibilidades e narrativas possíveis e, consequentemente, para revisões de posturas hegemônicas e excludentes. Essas mudanças, pouco a pouco, vêm afirmando outros percursos artísticos, para além dos referenciais canonizados como inabaláveis verdades inscritas na História da Arte Universal – aquela estritamente eurocentrada, branca, cisgênera, masculina e heterossexual.
Nessa esteira, a articulação entre arte contemporânea e arte drag tornou-se mote para o início da investigação intitulada A “dragficação” como fenômeno cultural e problemática na produção artística contemporânea, realizada na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, com financiamento da PRPq/UFMG.3 Ainda vigente, o projeto propõe-se a analisar as potencialidades da dragficação como um conjunto de questões e práticas presentes em poéticas de artistas contemporâneos/as, bem como suas relações com a afirmação de identidades e construção de subjetividades LGBTQIA+. “Dragficação”, nesta abordagem, refere-se ao ato ou efeito de tornar algo drag ou atuar in drag. Implica numa transformação que não se propõe a ser definitiva, nem evoluída, mas sim, fluida, transitória, viva. Implica em assumir estados de impermanência e questionamento, numa postura queer/cuir em seu sentido mais potente. Nesse contexto, a dragficação é entendida como um fenômeno manifesto na arte contemporânea, presente em temáticas, modos operativos e elementos imagéticos e discursivos em obras e poéticas, artísticas que tomam o fazer drag como zona de criação ou que, a esse universo estético, se associam ou são livremente associados.
Fronteiriço, o fenômeno drag tensiona todas as zonas possíveis, sobretudo as do gênero. Operadas por sujeitos das mais variadas sexualidades, nesta pesquisa não se fixa, exclusivamente, uma prática cultural LGBTQIA+. Ou seja, a dragficação também pode estar nesse lugar, não se definindo somente no hall das sexualidades dissidentes. São obras que tanto podem refletir práticas artivistas de gênero como, também, serem atuações de artistas visuais drags, sobre seus modos de habitar o mundo. Podem, ainda, refletir interesses pontuais de alguns artistas ou serem associadas às estéticas drag, por meio de relações de todos os tipos.
A partir da realização de um mapeamento inicial de artistas visuais, de atuação nacional e internacional, identificou-se a efervescência de poéticas que trazem em suas formas, abordagens políticas e estéticas, produtoras de estranhamentos, contradições e rupturas tanto na sociedade quanto na arte. Reconhecendo que a arte drag, assim como a arte contemporânea, situa-se na sutileza da liminaridade entre vida e arte, no entre modalidades e linguagens artísticas, na apropriação e transformação de materiais e conceitos, nas quebras de protocolos e no rompimento de limites de toda ordem, a dragficação é proposta como um conceito curatorial e como uma zona produtora de tensões.
Ao longo de um ano, por meio da busca em plataformas de redes sociais, sites, referenciais bibliográficos e da própria rede de artistas mapeados/as que levaram uns/umas às/aos outros/as pela trama de relações algorítmicas e do mundo real, a pesquisa chegou a 75 nomes, de distintas épocas e momentos de carreira. Abrangente, o mapeamento conduziu a obras e artistas consagrados/as, como vislumbres históricos, como a xícara peluda da surrealista Meret Oppenheim (1913 – 1985), o Ballet Triádico bauhausiano (1922), de Oskar Schlemmer (1888 – 1943) e as fotografias e desenhos andrógenos dadaístas de Man Ray (1890 – 1976); e a visualidades exacerbadas e usos indiscriminados de materiais ordinários, como as obras de Michael Kelley (1954 – 2012) e de Joana Vasconcelos (1971). Também conduziu ao encontro de poéticas insurgentes que têm arregaçado as convenções do sistema da arte, ao lançar questões sobre corpo, sexualidade e natureza, como Uýra Sodoma (1991).
Para a presente publicação, a partir desse levantamento, foi selecionado um recorte de 34 artistas brasileiros/as, com obras de instalação, vídeo, objeto, fotografia, performance, desenho, pintura, serigrafia, arte têxtil, cerâmica, assemblages, artes gráficas e, principalmente, a arte drag. Diversas e plurais, suas poéticas podem ser vistas em perspectivas que se produzem a partir do devir drag ou próprio modo de ser/estar drag no mundo, ao modo dessa tal Coisa dRag. O conjunto formado auxiliou na construção de quatro eixos curatoriais, a partir de elementos pulsantes e pontos de aproximação nas obras: Metamórficas, Atravessamentos e Mixagens, Lusco-fusco e Elogio Drag.
São obras metamórficas quanto a seus aspectos formais. Nas entranhas do drag, podem assumir quaisquer formas, cores, materialidades ou espacialidades. Se essa Coisa dRag fosse vista no microscópio, o que veríamos e, principalmente, o que se mostraria? Moles ou rígidas, abstratas ou figurativas? Embora essas obras tenham como ponto de conexão o estranhamento, pensar no que compõe o elemento drag, em suas estruturas atômicas, conduz mais às potencialidades do que ele pode vir a ser, do que exatamente do que ele é feito.
As pinturas de Avilmar Maia e os desenhos de Ítalo Carajá apresentam as estruturas mais básicas da construção de qualquer imagem: as formas, as cores, as manchas, os ritmos, volumes e movimentos. Uma condição celular, dos elementos compositivos
visuais em sua pureza, entretanto, não isentos de subjetividade. No drag, eles são brilhantes, metálicos e fosforescentes. Mórficas e amórficas, embrionárias ou exageradas, nas entranhas expostas na série Corpo (2023 e 2024), de Caio Mateus, e nas obras de Carolina Sanz, a Coisa dRag está nas possibilidades que a forma pode assumir. No que se transformará? O que tem por dentro? O que tem por fora?
Nos desenhos de Efe Godoy, seres estranhos formados por partes diferentes de múltiplos corpos, meio bichos, meio plantas, comentam sobre coexistência, diversidade e energia de vida, sobre o que podem ser. As transformações dos corpos e suas partes, humanos ou humanoides, são condições nas obras de Lia Menna Barreto, criadas a partir de bonecas derretidas, e de Cynthia Loeb, com sua bandeira-seio, assim como nas produções de Lorenzo Muratorio e Victor Borém, que se valem da cerâmica e da arte têxtil, respectivamente, como modos de criar objetos-coisas, ambiguamente, grotescos e acolhedores. O desconforto é presente também nos mantos de Dods Martinelli, protetores e sufocantes.
O camp, kitsch e a cultura pop, como um todo, são características de muitas das obras marcadas pela Coisa dRag. Como recursos estéticos, situação no limiar útil e inútil, valor e desvalor, brega e chic, essa condição opera-se indiscriminadamente entre as produções.
Referências à visualidade exacerbada aparecem nos lambes de Maria Carolina criados a partir das imagens de animais, de forma humorada e ácida, “montados” com batons, blushes e delineadores. Estão também na língua gigante, erótica e provocativa de Camila Moreira, de impulsividade e desejo de se fazer ouvir. Ambas as obras, por meio da ironia e da alegoria do exagero, nos conduzem a reflexões sobre papéis de gênero, violência e poder. Por outra via, o excesso também é recurso nas obras de Hugo Houayek, que fazem elogio à gambiarra e à precariedade por meio da apropriação e ressignificação de objetos e materiais ordinários, lançando questões sobre a atribuição de valor a determinadas coisas no mundo. No caso, as obras partem de uma discussão central sobre a linguagem da pintura, com pequenas peças feitas com maquiagens e esmaltes. Algo semelhante acontece em suas instalações que subvertem a noção da cor quando transmutada em matéria. De passagem, Téti Waldraff, com seu sapo montado no skate, cravejado de miçangas e ornamentos policromáticos brilhantes, lembra que, do possível ao impossível, tudo é reprocessado e reposicionado na cultura contemporânea.
Nessa direção, as obras de Rafa Bqueer e Augusto Fonseca apresentam personagens da mídia, produzidos pela TV que formou os gostos, desejos e imaginários de várias gerações, em especial, aquelas crescidas nos anos 80 e 90. Trata-se de ícones da cultura que, agora, ressurgem como memes na internet – linguagem essa sofisticada e sem precedentes. Na série Uó-Holl (2020), Bqueer apresenta quatro celebridades LGBTQIA+ brasileiras, fazendo uma paródia – e trocadilho – dessas figuras marginais ao se valer da visualidade mais célebre da Arte Pop estadunidense. Por sua vez, a obra de Fonseca entra nesse mapeamento por uma condição especial, sua atemporalidade na atualização da imagem de um dos maiores ícones pop brasileiros. Pois, na dragficação cabe tudo: afinal, que Show da Xuxa é esse?
Por meio de atravessamentos e mixagens, boa parte dessas obras referenciam-se na cultura pop e produzem-se em misturas e contaminações na cultura LGBTQIA+: processamentos e reprocessamentos da cultura e de seus elementos como modos de experimentação e construção identitária.
O bordado é elemento central na produção de Rodrigo Mogiz, que possui uma longa trajetória na arte têxtil e nas representações de figuras LGBTQIA+. Neste recorte, são apresentadas obras da série Aqueles Invisíveis (2018 a 2020), com a representação de fotos de família típicas em poses comportadas, vestidas a caráter, mas na subversão das expectativas de gênero: um estalo sobre as variadas composições familiares e sobre aquilo que nem sempre se vê. Em articulação, a série Os Mal-Educados (2024), de Elis Rockenbach, apresenta tensionamentos na justaposição de imagens de fotografias antigas de pessoas LGBTQIA+ em situações mundanas ou de violações de direitos, desenhadas em caneta esferográfica sobre textos antigos mimeografados com conteúdo didático sobre educação sexual. Lições de história sobre as representações subalternas de corpos outros, mas que também são recontadas, no sonho e na fantasia, como nas pinturas de Karine Mageste: imagens autorreferenciais e ficcionais sobre histórias reais?
No tensionamento da sexualidade, de modo mais direto, Adriano Basílio apresenta objetos cerâmicos em formas e usos nada convencionais, alusivos ao prazer e o sexo. Por perto, as almofadas bordadas de Tolentino Ferraz sugerem um jogo dicotômico com as relações de gênero e seus elementos culturais, a partir da representação de figuras de identidades trans. Em diálogo, os trabalhos de Cavi Brandão, com visualidade prototecnológica, informam sobre a vida mediada pelas relações e interfaces computadorizadas, da ordem dos afetos e da sexualidade, em imagens que evocam certa precariedade.
A dragficação também se operacionaliza na noite enquanto zona de acontecimento e criação, em suas áreas lusco-fusco e de breu, no universo das saunas, pubs, boates e inferninhos; circuitos marginais em que se desenvolve por meio da diversão e do prazer e que, também, promovem identidades, valores, afetos e modos de sociabilidade entre pessoas LGBTQIA+. Da festa à provocação, esses lugares são zonas inebriadas e nuviosas e têm sido, há anos, fundamentais à sobrevivência do fazer drag na atualidade, para além do descartável mainstream. Algumas poéticas se engendram nesse lugar, a partir das ambiguidades, dos brilhos e apagões, das luzes e darkrooms, como nas obras sexies e irônicas de Glau Glau. A obra Cine Atlas (2009), da série Boîte de Nuit de André Venzon, apresenta como um quebra-cabeça, personagens e fachadas de lugares da “zona” de Porto Alegre. Fragmentos dos desejo. A noite de Porto Alegre também é tema de meus trabalhos artísticos, como na obra Antes que a Noite Acabe (2022), totem luminoso que escreve, em luz, nomes de artistas drags e transformistas históricas da cena da cidade: uma homenagem à urgência da salvaguarda da memória LGBTQIA+, um monumento efêmero contra o esquecimento.
A seleção chega, assim, a artistas e obras que, de fato, são produzidas no devir drag ou que, a partir dele, fazem elogio à arte da “montação” e seus artistas. Os trabalhos
de Amorim, há bastante tempo, se nutrem do universo queer em suas obras, em vídeo, colagem e lambes, construindo a partir da apropriação e manipulação imagética e material de recursos relacionados à cultura drag.
Viver in drag é mote na produção de artistas que criam a partir de suas vivências, como a fantástica e megalomaníaca produção, em múltiplas linguagens, de Renato Morcatti. A partir de sua vivência drag, o artista cria objetos, desenhos, pinturas, assemblages e instalações, em dimensões variadas, um devir que confunde os limites da criação da vida e da arte. De modo singular e catatônico, a obra do artista é um elogio arrebatador às existências drag. A “montação” também é central na vida/obra de Carambola, que traz questões sobre efemeridade e tempo, seja por meio de registros em Polaroid ou dos lenços demaquilantes usados, que guardam as personificações de sua persona drag após cada desmontagem, quando ela some, ao final de cada noite. A arte também está nos corpos-obra de Cassandra Calabouço, Lai Borges, Lili Bertas e Sarita Themônia, que misturam pessoa física e persona drag, em performances, foto-performances e objetos-índex, rastros de sua existência – nada banal – no mundo.
Esse conjunto de obras múltiplas não reflete uma busca por unidade, coerência ou convergência conceitual. Sequer pretende estabelecer uma categoria analítica ou poética fechada, que certifique o que é dRag ou não é. Mais do que isso, a dragficação evidencia possibilidades de ser. Joga com as verdades e permite-se à ilusão, como sugere a obra O Engano (2007), de Tatiana Blass, em que uma mulher prega a um qualquer um que se permita ser enganado, inebriado em seu show de contradições. Em sua visualidade e materialidade, as obras compartilham algumas características em comum, mas seu ponto de unidade talvez esteja nos traços que as irrompem em formas performativas, discursivas e visuais de tensionamento e provocação; formas críticas a padrões, valores e convenções sociais relacionadas a tudo: ao corpo, ao gênero, ao território e à cultura.
Se por um lado o projeto cumpriu seu objetivo ao identificar a presença drag na arte contemporânea, por outro, evidenciou que essas obras e poéticas produzidas em convergência com esse fenômeno e a partir dele, extrapolam as conexões com a Cultura LGBTQIA+ e ganham mundos. A dragficação, como um grito, alardeia sobre a
coexistência de formas de vida, formas potentes de viver a vida. A arte drag é sobre o devir da liberdade. Essa tal Coisa dRag evidencia as potencialidades de um fenômeno indispensável ao nosso tempo, que pede por posicionamentos ousados, divergentes e subversivos, na contramão de tudo aquilo que, acomodadamente, sempre se espera do lugar-comum. "




