top of page

Devolver a escala ao tamanho das coisas

curadoria de Anelise Valls

2024

Bronze Residência / Porto Alegre, RS – Brasil

fisgar.

apanhar um peixe cuja boca fica presa ao anzol.


fisgar.

capturar a atenção de alguém ou perceber algo rapidamente.


desatar a presa que escorrega entre os dedos.

somos nós.


presos, verticais na superfície

com olhinhos a piscar, e os lábios entreabertos sob o peso da cabeça

içada,

no alto, suspensas, dezenas de esculturas de cerâmica

a enfatizar a discordância de escala entre quem se encontra em solo

firme e anzois

que, via de regra, cabem entre os dedos. na mesma via: desviar da regra.


“o sonho morde pela boca” (2025)


captura ágil.


talvez isso também só inverta a natureza das próprias relações:

ao invés da isca mergulhar na profundezas a atiçar predadores e

curiosos,

somos nós a inclinarmos nossas cabeças numa espécie de súplica

para termos nossas bocas enganchadas - quiçá junto vão nossos

medos e desejos apanhados.


em outra parede: propagação


pétalas carnosas

protuberâncias arredondadas

projeções fálicas

enervações pronunciadas

hermafroditas

antúrios que apresentam o formato da espata em concha ou

colher


crista-de-galo, tailflower, cockscomb, flamingo flower, flamingo

lily,

hawaiian love plant e tongue of fire, traduções para a

exoticidade desses seres híbridos.


“a flor é a menor parte”(2025)


perder de vista o que não seja corpo

e deixar que os próprios olhos funcionem como órgãos de toque

e sentir pela retina o olfato de flor

tocar cada obra com a pele dos olhos.


do úmido ao processo de queima,

moldar e esculpir a imigração de novas formas

o barro como campo metafórico.


saídas para a rigidez da representação,

para a divisão entre entre masculino/feminino,

para a cerâmica funcional.


a beleza ri da utilidade como quem sabe de um segredo antigo.

Lorenzo ri por último a nos lembrar que é preciso

devolver a escala ao tamanho das coisas

bottom of page